quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sobre liberdade, trajetos e carros.

Quase todos os filmes feitos para adolescentes e jovens adultos trazem alguma cena que expressa “liberdade”. Seja dirigindo e cantando alto, seja vendo o nascer do sol com os amigos. A formatura do ensino médio, ver as estrelas com o namorado... Algo nesse sentido. E tenho a liberdade de dizer – ou penso ter – que todo ser humano já teve a sensação de se libertar até mesmo de si. Existe essa vontade de querer voar sabe-se lá pra onde, gritar até cansar, como se isso fosse estraçalhar a ansiedade que existe dentro da gente em algum lugar. Chorar até esgotar a dor ou a ânsia ou o pavor, não sei. Em mim existe de tudo um pouco, e tento me convencer que essas coisas, na verdade, sempre existiram, só estão mais acentuadas. Dá pra acreditar nisso? Quando eu lembro que houve dias sem tantas lágrimas, sem tanto desespero e sem tanta angústia, eu digo que não, não dá pra acreditar.
Talvez - e digo isso sem tanta convicção – seja assim mesmo. Talvez essas coisas sempre tenham existido. Talvez os problemas dos outros sejam tão grandes quanto os nossos, ou maiores. Mas vou ser muito mentirosa se disser que consigo entender isso completamente. Quando é a sua vez de sentir as coisas, você descobre que não é tão altruísta assim. Eu pelo menos sei que não sou, e assumindo isso não quero ser nenhuma detentora da verdade ou da humildade. O intuito, na verdade, é identificar meus irmãos de “egocentrismo”. Não estou sozinha, sim?

Houve um tempo em que eu sonhava frequentemente que estava dirigindo e todas as vezes que sonhei isso, lembro-me de estar nervosa diante do volante, e sempre batia o carro. Uma vez, minha mãe me disse que esse sonho tinha algo relacionado à liberdade. Deduzi por isso que “Liberdade não é meu forte. Não agora, Elena. Agora você vai bater e se machucar.” E aí? E aí que eu teria que encarar uma batida, um arranhão, um braço quebrado ou qualquer consequência dessa batida. Isso era demais pra mim. Porque arriscar? Hoje eu acho que se eu estivesse no volante, eu talvez quisesse bater. Ou precisasse bater. Ou quem sabe nem batesse de primeira. O fato é que mais cedo ou mais tarde, eu bateria o carro. Eu me machucaria, e talvez nem precisasse estar no volante pra me machucar, porque se eu deixasse outra pessoa dirigir, o risco de algum acidente acontecer era o mesmo, simplesmente porque todo mundo tem seu baque algum dia. Se isso afeta ou não outras pessoas, depende do baque e claro, de como o trajeto é feito. Agora, se eu batesse, do que me importaria os outros carros batidos? O meu estava batido! O que me faria pensar em olhar para ver se alguém estava mais ferrado do que eu? Nada mais teria minha atenção. Aqui estamos nós no egocentrismo de novo. Como eu gostaria de achar minha grama mais verde nesse momento!

E sabe de uma coisa? Embora existam todos esses perigos, o risco de fazer a escolha errada, o risco de não conseguir sozinha de primeira, existe o risco de ser livre. Livre que nem a gente fica quando olha as estrelas com o namorado, ou quando a gente canta “Man! I Feel Like a Woman” alto no carro – carros são o forte desse texto, hein? – ou quando a gente vê o nascer do sol com os amigos. Livre como quando a praia é só nossa ou quando nosso quarto é pequeno mas está tocando aquela música, e ouvindo ela é como se só existisse você e a sua liberdade no mundo. Não é uma cena de filme adolescente que traduz a liberdade, nem o sonho com o carro batido. Essas coisas, no meu modo de ver, não chegam nem perto da sensação da tão famosa “freedom”. São metáforas que enfeitam textos como esse, mas pra corações aflitos por serem livres, é a maneira mais alegre e palpável pra explicar o que só se consegue sentir. Nesse caso, discordo de Clarice: liberdade pra mim não é pouco. Se vier com um carro de brinde então, negócio fechado.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Sobre acreditar.

O que eu mais quero é acreditar.
Porque ando doente, com o coração debilitado, os olhos lacrimejantes e a cabeça tonta. Por fora sou só risos. Sorrisos que camuflam uma angústia debilitante.
O que eu mais quero é acreditar que nem tudo é em vão, que o amor também existe pra mim e que a tormenta um dia vai passar. Quero amor declarado, escancarado, quero acreditar que não sonho sozinha.
Tenho em mim um abismo que clama para que eu me atire pra ele. Talvez seja ele o único no mundo que está disposto a me receber e me absorver de corpo e alma. Talvez só esse abismo, que contém tudo e contém nada, talvez só ele desembarace os nós dessa dor. Talvez só ele me ame de verdade. Se ele me amar, o que eu mais quero é acreditar.
Eu estou fraca e assustada. Não consigo amar e preciso desesperadamente ser amada. Surpreendida. Impactada. Laçada. Conquistada.
O que eu mais quero é acreditar que ainda há espaço pra tudo isso, mesmo com toda a bagunça que anda esse meu coração. Quem vai lutar por mim? Quem vai me escrever bilhetinhos? Quem vai me dar um abraço sem motivo no meio da tarde? Quem vai ouvir meus medos e acalmá-los? Eu não quero gritar, eu não quero implorar. Eu só quero esperar. Eu quero que alguém me ajude a acreditar. Você ainda está aí?

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O observatório.

Por alguns instantes, ela se sentia plena no observatório. Seus olhos eram os melhores analistas que alguém pode imaginar. Tinha pelo observado um afeto incomum. A admiração não cessava. Por vezes se sentiu meio boba, mas não era o caso. Prescrutava com seus olhos cada ruguinha, cada curva, cada parte daquele homem, que de inédito pra ela não tinha nada. Mas ela amava se refugiar no observatório e admirá-lo de longe, entregando-se cada vez mais por inteiro ao observado.
Não se sabe se era o amor dela que fazia o observado ser tão bonito, ou se esse já o era. Ainda assim, a admiradora se encantava um pouco mais cada vez que usava o observatório. Não entendia muito bem a lógica no Não-Cansaço que o lugar tinha, mas o fato era que não se cansava. Nem ela, nem suas lentes, nem seu coração. Vivia um amor através de um vidro.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sobre luzes de faróis e agulhas.

Acho que tem uma fase na vida da gente que os amigos são nossos faróis. Iluminam o tantinho do caminho que nos cabe ver; mais que esse tantinho é sacanagem com o futuro. Ele acaba perdendo o emprego numa dessas, então, vamos vendo o necessário pra dar os primeiros, segundos, terceiros passos. De mãos dadas, nunca sozinhos, porque enquanto tem uma luz, temos uma chance. Por falar nisso, não me lembro de ter tido momentos completamente escuros. E sem querer bancar a sabidona, acho que você também não vai lembrar.
No caminho, a gente vai andando e às vezes perambulando e tentando ser mais do que consegue, ver mais do que pode, tropeçar menos do que deve. A gente cai e chora e dói muito, e ninguém realmente entende. Mas alguém vem e nos levanta, e a gente olha pra trás e a pedra parece ter diminuído. Andamos mais um pouco e, como num insight, entendemos que era só uma pedrinha. E aí nem nós mesmos entendemos porque tropeçamos. Só o que se sabe é que sempre haverá uma pedra maior que, na verdade, era pequena também, mas não conseguimos ver com tanta clareza nesses momentos de queda. É como se nos anestesiassem com dor - uma longa e gigantesca agulhada, vinda de todos os cantos, nos suspendendo em um coração apertado. Mas veja só, existem mãos que se dispõe a retirar as agulhas, a dosar a medicação certa, e pronto. Passou. Está passando. Ou vai passar.
Mas eu acho, no fim de tudo, que nossos amigos-faróis-enfermeiros são, na verdade, os simples. Pelo menos, enquanto escrevo, tenho três faróis em pensamento. Calculando bem, remexendo e revirando, entendi que eles conseguem mesmo iluminar o tantinho do caminho e levantar a gente e retirar as agulhas porque é simples como eles. Porque, se a gente estiver com o rosto cheio de poeira por ter chorado e ficado no chão, eles não ligam. Eles simplesmente vêm e te puxam, e dane-se sua sujeira. Ou nem tanto "dane-se a sua sujeira", porque eles vão te levar no colo, dar um banho e elogiar seu perfume, mesmo que seja só isso que tenham dito desde que te levantaram. Eles não precisam de discursos, nem textos, nem sacadas, nem cultura, nem músicas-tema, nem nada que envolva uma foto para mostrar pros outros. Eles só precisam que tire seus adereços. Eles só querem ser simples, sinceros, limpos, justos com você. Eles querem ouvir aquela música sem serem julgados, e querem ouvir as suas só pelo prazer de te ver cantando. Eles querem discutir sobre coisas e medos que nunca vão conseguir contar pro Grande Grupo, porque o Grande Grupo é cruel e esmagador. Eles querem que você cresça, mesmo que você não entenda que isso é necessário. Eles querem que você queira por eles algumas vezes. E, quando eles sabem que você não está em condições de querer, eles estão ali para te ajudar a não bagunçar mais as coisas. Tem tantas Coisas Tão Maiores que o Resto... Mas o Resto nos consome quase por inteiro. O Resto nos faz rudes e mal educados. O Resto nos faz cegos, nos faz gananciosos e preguiçosos. Mas as Coisas Tão Maiores enchem o coração e a sala como o Resto nunca vai conseguir fazer. As Coisas Tão Maiores, que são, na maior parte do tempo, as "coisinhas" só fazem sentido com nossos faróis. Já dizia um príncipe bem pequeno: "O essencial é invisível aos olhos."

segunda-feira, 29 de abril de 2013

Oito ou oitenta.


De todo o coração, nem todo quase fim é argumento para um bom começo. Talvez as piores estórias comecem justamente desse jeito; com (res)sentimentos pela metade, quase crus ou quase cozidos. As marteladas finais do destino deveriam ser obrigatórias: quem dera fôssemos oito ou oitenta e parássemos de ser 17, 38, 62...
Não aceito a condição de ter só um pouquinho, sentir de faz de conta, viver só até onde não gerar riscos. A vida por si só já tem seu painel todo rabiscado, sem mínimas previsões. Os laços não podem ser tão frouxos que se desfaçam na força de um sopro – desse jeito, nenhuma estrutura resiste – e nem tão firmes que sufoquem – desse jeito, ninguém coexiste.
“Quase” talvez seja minha pior palavra. Tão pior que me lembra mais uma vez todas as coisas que quase puderam ser e não foram. Quase me perco nessa confusão, mas e se me perdesse de verdade? E se finalmente me achassem? Não sei por onde anda quem quase apareceu. Não sei o que ainda está fazendo aqui quem quase foi embora. Queria que aparece a oito metros quem vai me achar e desaparecesse por oitenta anos quem faz eu me perder.
Doce, não. Amarga ilusão. Esse lugar onde tudo poderia acontecer, essa utopia onde habito congelou meus pensamentos em sua ignorância, e a dor não tarda em chegar. Ainda encontro a marca de suas pegadas em volta de meu cativeiro semifeliz, utópico, mas de onde um dia teria que sair. A crueldade está de aviso há tempos nos vidros embaçados, nos anúncios em postes, nos classificados dos jornais. Meu lugar quase perfeito está se desmanchando outra vez... Estava indo bem sua construção. Esse coração-castelo-de-areia é realmente um "quase" imprevisível. Quem sabe aos oitenta as coisas melhorem... Ainda me perco na inocência dos oito.