segunda-feira, 9 de abril de 2018

A varanda.


Aquele dia eu desaguei
Virei o eco de uma dor que vinha do fundo do peito e transbordou pelos olhos
Meu rosto marcado pela trilha das lágrimas e a boca com gosto de cigarro
O cigarro que eu fumei na tua varanda enquanto tu pendia em sono no sofá
E eu ali
Desaguando e fumando e chorando e morrendo
Eu sabia que ia doer
Já tava doendo
E doeu mais
E como foi horrível ver o amor morrendo na minha frente
Bem ali, agonizando naquela varanda
Apagando naquela cinza de cigarro
Escorrendo naquela lágrima
Um amor que morreu e respirava com ajuda de aparelhos
Voltei da sacada, te vi no sofá, desliguei a TV e te chamei pra cama
Dormimos com o cadáver de um amor entre a gente
E como eu já sabia, o velório chegou
E nesse dia eu acendi mais um cigarro
E desaguei mais
Dessa vez, sem a varanda.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O que me tornei.

Tem uma frase da Coco Chanel que eu gosto desde criança
Ela diz assim
"Eu já não sou o que era. Devo ser o que me tornei"
Você já passou por aquele momento da vida
Em que tudo parecia perfeitamente definido
Seu jeito de se vestir
De falar
Seu gosto musical
Suas cores favoritas
E de repente tudo vira de ponta cabeça
E você se olha no espelho e percebe
Que você não é mais aquele você?
Você é outro
Um Você meio desconhecido
Que talvez sempre tenha estado ali
Mas um Você com quem ainda é necessário conversar
Puxar uma cadeira
Olhar dentro dos olhos tímidos e um tantinho amedrontados
Por a mão no ombro de Você
E falar
"Bom, aqui estamos.
Acho que chegou a hora de nos conhecermos"
E tão rápido quanto Você apareceu
O resto vai desaparecendo
E você vai se tornando Você
Sem medo nem culpa
E entendendo que nada daquilo que foi embora vai fazer falta
Você agradece por ter feito isso
E por ter encontrado Você no outro lado do espelho
E dá uma alegria danada perceber que Você é aquilo que você se torna mesmo.

Fones de ouvido.


Sabe aquele lado do fone
Que parece que está sempre mais baixo que o outro?
Eu fico me perguntando sempre se estou sendo injusta com aquele lado
Ou se ele realmente está mais baixo
Tiro o fone mais alto e me certifico que o outro ainda funciona
Me contento com isso e volto a usar os dois fones
Mas fica sempre aquele incômodo
Você é o fone mais baixo
Que às vezes parece que parou de cantar nossa música
Enquanto meu lado do fone continua funcionando a todo vapor
Gritando nossa canção pro mundo
Até eu me sentir incomodada com nosso desequilíbrio musical
Injustiçada por cantar sozinha
Tirar o lado esquerdo do fone do ouvido
E finalmente perceber
Que o lado direito
Pifou

É nessa hora que eu tiro os fones
Ouço o som da vida lá fora
E espero até encontrar outro
Que valha a pena desenrolar os fios
Pra dar play em uma nova canção



quarta-feira, 28 de março de 2018

Dois pontos


Você foi como uma frase que termina com dois pontos..
E justamente por serem dois eles me incomodavam..
Não eram frios como se fossem um..
Nem esperançosos como se fossem três..
E era errado porque não existe esse meio termo de dois pontos..
Foi você que inventou..
E me deu uma esperança sem ser reticências..
E não me deu a honestidade por não ser ponto final..
Seus dois pontos..
Errados e preguiçosos..
Deixaram a gramática dos meus sentimentos sem ter o que dizer..
Me confundiram e incomodaram..
E infelizmente por isso me marcaram..
Quem dera fossem reticências ou ponto final que já me acostumei a ver..
Mas, meu bem..
Seus dois pontos tão inexplicavelmente inconvenientes..
Quebraram o ritmo do que poderia ser uma linda história..
Que hoje é só mais um texto que foi jogado fora..
Porque revisão nenhuma poderia corrigir..
O erro maior que foi deixar você entrar na narrativa.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Por onde.

Por onde será que anda você agora?
Eu já te acho lindo e nem te conheço.
Será que você tá sofrendo por alguém nesse instante? E eu aqui louca pra te conhecer, te dar um colo e dizer que vou ficar aqui por muito, muito tempo.
Já ouvi um monte de músicas que sei que vou querer cantar pra você. Imaginei eu acordando mais cedo que você e ficando quietinha só te vendo dormir em segredo.
Por onde será que anda você agora?
Tem um amigo meu que você precisa conhecer. E como eu já te amo muito, ele vai te amar também. Ele é demais. A gente pode combinar umas jantas com ele, tomar umas cervejas e rir bastante.

Pra mim, teu abraço é o céu.  (Ilustração Lucy Salgado)Imagina que vai ter um domingo que a gente vai estar bem abraçadinho, pensando que aquilo é tudo que a gente queria e que o momento de agora é só um dos caminhos que a gente teve que pegar até ali.
Imagino por onde você anda agora.
Será que já nos cruzamos na rua? No mercado? Na fila do pão lendo o jornal?
Eu imagino você sempre.
Imagino o amor que a gente vai libertar quando se conhecer, como se finalmente a gente encontrasse alguém que entende nosso idioma. Vou falar muito, amar muito, te querer muito. Vou andar na rua feliz por ter te encontrado.
Eu já ando na rua feliz porque vou te encontrar um dia.
Se a gente vai se desencontrar depois, eu não sei.
Mas eu vou construindo o encontro.
E enquanto a gente não se encontra, por onde será que anda você agora?