segunda-feira, 2 de abril de 2018

Fones de ouvido.


Sabe aquele lado do fone
Que parece que está sempre mais baixo que o outro?
Eu fico me perguntando sempre se estou sendo injusta com aquele lado
Ou se ele realmente está mais baixo
Tiro o fone mais alto e me certifico que o outro ainda funciona
Me contento com isso e volto a usar os dois fones
Mas fica sempre aquele incômodo
Você é o fone mais baixo
Que às vezes parece que parou de cantar nossa música
Enquanto meu lado do fone continua funcionando a todo vapor
Gritando nossa canção pro mundo
Até eu me sentir incomodada com nosso desequilíbrio musical
Injustiçada por cantar sozinha
Tirar o lado esquerdo do fone do ouvido
E finalmente perceber
Que o lado direito
Pifou

É nessa hora que eu tiro os fones
Ouço o som da vida lá fora
E espero até encontrar outro
Que valha a pena desenrolar os fios
Pra dar play em uma nova canção



quarta-feira, 28 de março de 2018

Dois pontos


Você foi como uma frase que termina com dois pontos..
E justamente por serem dois eles me incomodavam..
Não eram frios como se fossem um..
Nem esperançosos como se fossem três..
E era errado porque não existe esse meio termo de dois pontos..
Foi você que inventou..
E me deu uma esperança sem ser reticências..
E não me deu a honestidade por não ser ponto final..
Seus dois pontos..
Errados e preguiçosos..
Deixaram a gramática dos meus sentimentos sem ter o que dizer..
Me confundiram e incomodaram..
E infelizmente por isso me marcaram..
Quem dera fossem reticências ou ponto final que já me acostumei a ver..
Mas, meu bem..
Seus dois pontos tão inexplicavelmente inconvenientes..
Quebraram o ritmo do que poderia ser uma linda história..
Que hoje é só mais um texto que foi jogado fora..
Porque revisão nenhuma poderia corrigir..
O erro maior que foi deixar você entrar na narrativa.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Por onde.

Por onde será que anda você agora?
Eu já te acho lindo e nem te conheço.
Será que você tá sofrendo por alguém nesse instante? E eu aqui louca pra te conhecer, te dar um colo e dizer que vou ficar aqui por muito, muito tempo.
Já ouvi um monte de músicas que sei que vou querer cantar pra você. Imaginei eu acordando mais cedo que você e ficando quietinha só te vendo dormir em segredo.
Por onde será que anda você agora?
Tem um amigo meu que você precisa conhecer. E como eu já te amo muito, ele vai te amar também. Ele é demais. A gente pode combinar umas jantas com ele, tomar umas cervejas e rir bastante.

Pra mim, teu abraço é o céu.  (Ilustração Lucy Salgado)Imagina que vai ter um domingo que a gente vai estar bem abraçadinho, pensando que aquilo é tudo que a gente queria e que o momento de agora é só um dos caminhos que a gente teve que pegar até ali.
Imagino por onde você anda agora.
Será que já nos cruzamos na rua? No mercado? Na fila do pão lendo o jornal?
Eu imagino você sempre.
Imagino o amor que a gente vai libertar quando se conhecer, como se finalmente a gente encontrasse alguém que entende nosso idioma. Vou falar muito, amar muito, te querer muito. Vou andar na rua feliz por ter te encontrado.
Eu já ando na rua feliz porque vou te encontrar um dia.
Se a gente vai se desencontrar depois, eu não sei.
Mas eu vou construindo o encontro.
E enquanto a gente não se encontra, por onde será que anda você agora?

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Da tua admiradora secreta.

Vi você de longe hoje. Você não me viu porque provavelmente nem me conhece. Eu diria que com certeza você não me conhece. Mas não importa muito, desde que eu ainda possa te admirar de longe.
É bem verdade que cada vez que você sorri eu gostaria de morar dentro daquelas suas covinhas, porque pra mim é o lugar mais bonito do seu corpo. Mas não recusaria a oportunidade de descobrir você por inteiro – descobrir seu peito nu e chegar perto da batida do seu coração, que provavelmente bate no ritmo da sua voz quando canta, que eu ouço com textura de veludo.
Eu fico olhando pro teu rosto e descubro que ele é a minha fotografia favorita no mundo. Tua beleza é a poesia que eu não canso de ler, daquelas que dá vontade de tatuar pelo corpo inteiro – tua paz nos movimentos dos braços e teu jeito de se acomodar na cadeira são minha dança preferida. Ficaria horas parada apenas te vendo caminhar, sentar, levantar, ajeitar o cabelo – esse teu cabelo! Talvez seja uma versão masculina heroica da Medusa. Não sei explicar de um jeito melhor a hipnose que tu me causas.
Se eu tivesse te conhecido com 13 anos, já teria escrito uma música pra você na última folha do meu caderno. Já teria entrado em comunidades do Orkut pensando em você. Teria passado noites imaginando como seriam nossas primeiras conversas. Teria começado a ouvir uma banda que você gosta muito. Mas eu te conheci agora. Ainda assim, eu olho pra você e imagino nós dois entrando numa loja de decoração e comprando almofadas pra enfeitar nosso sofá. Imagino nós dois terminando um filme e discutindo mil teorias sobre ele. Imagino nós dois cantando juntos e um pro outro, com a sede do amor no olhar. Imagino nós dois, apenas.
Talvez eu passe a vida só imaginando. Talvez não. Mas me basta a paz de saber que existe uma beleza tão pura e tão rara no mundo como a tua. Basta a certeza de que tu estás presente em algum lugar. Basta a mim a calmaria de saber que posso te ver de longe hoje, amanhã e depois. Basta a mim te ver.

Da tua admiradora secreta.


sábado, 13 de agosto de 2016

Os olhos nus.

Sem intenções. Sem novidades. Estavam apenas nus, aqueles olhares. Dois desconhecidos que ergueram os olhos ao mesmo e tempo e se descobriram perplexos ao se encararem forçadamente.

É curioso como o olhar nos entrega. Não é à toa que chamam os olhos de “janelas da alma”. Quando fitamos sem querer alguém que também encontra nossos olhos sem intenção, é como se as janelas estivessem com as cortinas abertas e lá no cômodo alguém troca de roupa furtivamente, na tentativa de não ser pego em flagra. E assim como rapidamente se desvia o olhar, rapidamente se fecham as cortinas na tentativa de que o embaraço seja amenizado, como se fosse um grão de areia ao invés de um elefante desengonçado entre as duas grandes janelas.

O porquê de desviarmos o olhar tão pasmos como se tivéssemos sido invadidos, não sei. Mas sei que congelo cada vez que meu olhar se descobre nu sobre a nudez de outro par de olhos – uma intimidade repentina, um soco na boca do estômago, uma cilada, Bino! – e fico me perguntando se é um sinal do universo ou coisa parecida cruzar duas janelas distantes ao mesmo tempo. Quem sabe seja essa a agulha no palheiro do mundo dos olhares.

Talvez seja utopia, mas espero que um dia estejamos preparados para olhar o mundo de maneira nua e despretensiosa, sem medo de sermos pegos por outros olhares nus. Sem mascarar nada. Sem que precisemos fechar as cortinas, porque da janela só se verão coisas bonitas.