segunda-feira, 11 de junho de 2018

Raiz.

Resolvi deixar de tingir meu cabelo
E a raiz dele começou a aparecer
O contraste é evidente
Mas ele não tem me incomodado mais
Em uma noite de sexta-feira
Decidi não sair de casa
E ficar na casa que eu sou
Ficar em mim
E ficar comigo
Depois de vários passeios
Em textos, imagens e sons
Resolvi colocar uma música pra ouvir de verdade
Fechei os olhos e prestei atenção em todo o seu canto
As cordas pareciam dedilhar meus sentimentos
O toque ao fundo ritmou meu coração
Quando percebi, mal respirava
Corria pela floresta que habita dentro de mim
Procurando por algo que não sabia o que era
Mas corria rápido
Como se a pressa fosse responder por si só a busca
A música terminou
E honrando meu estado atual
Coloquei outra música 
Uma que é raiz de mim
Minha música castanho claro
Batizei aquele momento como descoberta de mim mesma
E mergulhei numa canção através de outra canção
Relembrei tudo o que já fui
Todas as minhas versões que passaram por aquela batida
Olhei para os originais de mim mesma
E notei cada fio invisível que me conectava a algo através de uma harmonia tão singela
Foi então que acordei minha essência
Primitiva e enraizada
Me encarei de frente
Passado e presente se encontrando e dando as mãos
Dançando com os cabelos
Sem nada a dizer
Não me aconselhei ao passado
Não me escandalizei com o presente
E me abracei
Ouvindo a música, mergulhamos uma na outra juntas e inteiras
E percebi que sou raiz
Sou castanho claro
Com registros avermelhados pelo meio do caminho
Sou Eu
A única e sempre Eu
Muito mais que o passado
Mas sempre ele
Enraizado e acompanhado de um tronco presente
A verdade é que hoje eu acolhi minha raiz
E meu contraste
Que bom saber
Que eles estão aqui pra me lembrar
Que meu castanho vai sempre ressurgir
Pra relembrar que eu sou pra sempre
A minha casa segura
Pra sempre raiz de mim
Pra sempre Eu

segunda-feira, 4 de junho de 2018

Malabarismo.


O malabarismo que acontece na gente é de rir
A tentativa de segurar firme o mundo com nossas mãos
Ter tudo no controle
Mesmo sabendo que pra dança do malabarismo continuar
Tem que se soltar
Olha só
Controlar tudo é não se surpreender no próximo movimento
Controlar tudo é se aprisionar em esqueminhas previsíveis
É não dançar junto com as mãos no malabarismo
Que coisa mais linda
Ver o descontrole na bola que não é segurada
Ela, toda plena
Voando no próprio céu
Subindo alucinada e descendo eufórica
Louca pra contar pras nossas mãos
A delícia de ser livre e experimentar o ar do alto
E quão magnífica é a coragem
De soltar as outras esferas
E entender o momento delas de voar também
Eu acho
Que tudo na vida
Deveria subir alucinado e descer eufórico
Como uma bolinha de malabarismo
Que sabe que depois da subida
Tem a descida
E depois da descida
Tem outra subida
E todo mundo vai respirar no céu
Louco e descontrolado
E vai perceber a maravilha que é o sincronismo
De segurar umas bolinhas
Pra deixar respirar as outras



Malabarisme-se
Aceitar o descontrole às vezes pode ser oxigenador

segunda-feira, 21 de maio de 2018

Desculpa.


Quando você disse que passaria pela porta e não voltaria mais
O pedido de desculpas veio logo depois
“É que eu não posso ficar”, você disse
E se desculpou por ter despertado
O que estava há tanto tempo adormecido em mim
Mas você se justificou com a pessoa errada
Peça desculpas aos meus amigos
Ao meu gato
Ao meu travesseiro
Às janelas dos ônibus
Às louças na pia da minha casa
Àquela música que você me enviou por mensagem
E todas as outras que me lembram você
E vez ou outra aparecem na reprodução aleatória do Spotify
Peça desculpa também ao YouTube
Que tem me ajudado com infinitos vídeos para superar essa dor
Todos eles estão ouvindo a minha tristeza muda
Me aconselhando dentro da minha própria cabeça
Ou sendo válvula de escape para tudo o que eu queria dizer e não disse
Tudo o que eu queria chorar e não chorei
Tudo o que eu queria que você fosse
Mas você se foi
Não se esqueça também de se desculpar com o vento
Que mesmo sem querer
Acaba ouvindo os ensaios das minhas falas imaginárias
Todos eles tentando simular nossa próxima conversa
Quando te encontrarei na rua
E terei que fingir
Que todo mundo te desculpou.

segunda-feira, 23 de abril de 2018

Playlist.


Ontem eu coloquei a minha playlist pra tocar
E tocou aquela música
A nossa música
Senti um vazio desesperador pousando bem do meu lado
O vazio que tomou conta quando você foi embora
A música começou e foi como se eu tirasse a tampa de um liquidificador
E visse todos os nossos momentos lá, emaranhados
Triturados
Felizes e despedaçados
E a música tocando e eu lembrando de você cantando ela pra mim
Dizendo que lembrava da gente naquela frase
Tocando ela no violão e fazendo dela a nossa música
E eu lembro quando recebi uma mensagem sua com um trecho daquela canção
E cada frase daquela música me lembrava um beijo
E cada beijo me lembrava um momento infinitamente efêmero
Momentos fumaça que eu tentava agarrar e sumiam
Você foi fumaça que eu tentei agarrar e sumiu
E eu sou cinza que ardeu em paixão e chamou por ti todas as noites
Com o coração queimando em solidão
O mesmo coração que hoje se apagou
Mas mantém, bem no fundo, a brasa escondida
Que inflama cada vez que eu ouço a nossa música.

segunda-feira, 16 de abril de 2018

Estrela cadente.


Esses dias eu vi uma estrela cadente
Foi a minha primeira
Eu estava sentada no pátio de casa, ouvindo uma música que me faz flutuar por dentro
Em um dado instante, resolvi abrir os olhos e olhar para cima
E no exato momento que eu decidi enxergar, eu vi
Eu vi uma estrela riscando o céu e fiquei sem ar
Abri a boca e meu queixo chegou pertinho do chão, mas não caiu
Minhas mãos foram recolhê-lo e pousaram no rosto
Meus olhos inundaram
Meu corpo parou
Saí do transe um segundo depois com meus pensamentos explodindo de felicidade
Parecia que meu corpo implorava para ter mil bocas para que mil vezes eu pudesse dizer o quanto eu estava feliz o mais rápido possível
E no fim não consegui dizer nada
Era a minha primeira estrela cadente
Tão rápido quanto ela desapareceu, pensei:
PUTZ!
Esqueci o pedido!!!
COMO EU FUI ESQUECER O PEDIDO?!?
Na mesma hora, me perdoei
Ora, valeu tanto a explosão de alegria e a estreia da estrela cadente na minha vida
Que era como se o pedido já tivesse sido cumprido
Isso me fez pensar que algumas coisas na vida são como a minha primeira estrela cadente
Elas aparecem
E a gente acha que elas vão fazer alguma coisa lá na frente por nós
Estrelas cadentes que realizam nossos desejos
Causas realizando consequências
E a gente esquece da alegria de simplesmente ter a estrela ali
Esquece da sorte de ter visto ela passar, por mais rápido que tenha sido
Não se dá conta de perceber o brilho indescritível que emana dela iluminando nossa alma 
E fica triste por não saber o que pedir
Mas pedir pra quê se dá pra ser feliz com ela naquele momento só de vocês?
A linda estrela cadente ali, naquela noite só sua
Então me dei conta de que a minha estrela não apareceu para realizar meu pedido
Ela mesma se tornou ele
Meu pedido provavelmente seria o grande clichê
“Quero ser feliz”
E por causa dela
Naquele momento eu já havia sido
Essa estrela cadente era das boas.

segunda-feira, 9 de abril de 2018

A varanda.


Aquele dia eu desaguei
Virei o eco de uma dor que vinha do fundo do peito e transbordou pelos olhos
Meu rosto marcado pela trilha das lágrimas e a boca com gosto de cigarro
O cigarro que eu fumei na tua varanda enquanto tu pendia em sono no sofá
E eu ali
Desaguando e fumando e chorando e morrendo
Eu sabia que ia doer
Já tava doendo
E doeu mais
E como foi horrível ver o amor morrendo na minha frente
Bem ali, agonizando naquela varanda
Apagando naquela cinza de cigarro
Escorrendo naquela lágrima
Um amor que morreu e respirava com ajuda de aparelhos
Voltei da sacada, te vi no sofá, desliguei a TV e te chamei pra cama
Dormimos com o cadáver de um amor entre a gente
E como eu já sabia, o velório chegou
E nesse dia eu acendi mais um cigarro
E desaguei mais
Dessa vez, sem a varanda.

segunda-feira, 2 de abril de 2018

O que me tornei.

Tem uma frase da Coco Chanel que eu gosto desde criança
Ela diz assim
"Eu já não sou o que era. Devo ser o que me tornei"
Você já passou por aquele momento da vida
Em que tudo parecia perfeitamente definido
Seu jeito de se vestir
De falar
Seu gosto musical
Suas cores favoritas
E de repente tudo vira de ponta cabeça
E você se olha no espelho e percebe
Que você não é mais aquele você?
Você é outro
Um Você meio desconhecido
Que talvez sempre tenha estado ali
Mas um Você com quem ainda é necessário conversar
Puxar uma cadeira
Olhar dentro dos olhos tímidos e um tantinho amedrontados
Por a mão no ombro de Você
E falar
"Bom, aqui estamos.
Acho que chegou a hora de nos conhecermos"
E tão rápido quanto Você apareceu
O resto vai desaparecendo
E você vai se tornando Você
Sem medo nem culpa
E entendendo que nada daquilo que foi embora vai fazer falta
Você agradece por ter feito isso
E por ter encontrado Você no outro lado do espelho
E dá uma alegria danada perceber que Você é aquilo que você se torna mesmo.

Fones de ouvido.


Sabe aquele lado do fone
Que parece que está sempre mais baixo que o outro?
Eu fico me perguntando sempre se estou sendo injusta com aquele lado
Ou se ele realmente está mais baixo
Tiro o fone mais alto e me certifico que o outro ainda funciona
Me contento com isso e volto a usar os dois fones
Mas fica sempre aquele incômodo
Você é o fone mais baixo
Que às vezes parece que parou de cantar nossa música
Enquanto meu lado do fone continua funcionando a todo vapor
Gritando nossa canção pro mundo
Até eu me sentir incomodada com nosso desequilíbrio musical
Injustiçada por cantar sozinha
Tirar o lado esquerdo do fone do ouvido
E finalmente perceber
Que o lado direito
Pifou

É nessa hora que eu tiro os fones
Ouço o som da vida lá fora
E espero até encontrar outro
Que valha a pena desenrolar os fios
Pra dar play em uma nova canção



quarta-feira, 28 de março de 2018

Dois pontos


Você foi como uma frase que termina com dois pontos..
E justamente por serem dois eles me incomodavam..
Não eram frios como se fossem um..
Nem esperançosos como se fossem três..
E era errado porque não existe esse meio termo de dois pontos..
Foi você que inventou..
E me deu uma esperança sem ser reticências..
E não me deu a honestidade por não ser ponto final..
Seus dois pontos..
Errados e preguiçosos..
Deixaram a gramática dos meus sentimentos sem ter o que dizer..
Me confundiram e incomodaram..
E infelizmente por isso me marcaram..
Quem dera fossem reticências ou ponto final que já me acostumei a ver..
Mas, meu bem..
Seus dois pontos tão inexplicavelmente inconvenientes..
Quebraram o ritmo do que poderia ser uma linda história..
Que hoje é só mais um texto que foi jogado fora..
Porque revisão nenhuma poderia corrigir..
O erro maior que foi deixar você entrar na narrativa.

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

Por onde.

Por onde será que anda você agora?
Eu já te acho lindo e nem te conheço.
Será que você tá sofrendo por alguém nesse instante? E eu aqui louca pra te conhecer, te dar um colo e dizer que vou ficar aqui por muito, muito tempo.
Já ouvi um monte de músicas que sei que vou querer cantar pra você. Imaginei eu acordando mais cedo que você e ficando quietinha só te vendo dormir em segredo.
Por onde será que anda você agora?
Tem um amigo meu que você precisa conhecer. E como eu já te amo muito, ele vai te amar também. Ele é demais. A gente pode combinar umas jantas com ele, tomar umas cervejas e rir bastante.

Pra mim, teu abraço é o céu.  (Ilustração Lucy Salgado)Imagina que vai ter um domingo que a gente vai estar bem abraçadinho, pensando que aquilo é tudo que a gente queria e que o momento de agora é só um dos caminhos que a gente teve que pegar até ali.
Imagino por onde você anda agora.
Será que já nos cruzamos na rua? No mercado? Na fila do pão lendo o jornal?
Eu imagino você sempre.
Imagino o amor que a gente vai libertar quando se conhecer, como se finalmente a gente encontrasse alguém que entende nosso idioma. Vou falar muito, amar muito, te querer muito. Vou andar na rua feliz por ter te encontrado.
Eu já ando na rua feliz porque vou te encontrar um dia.
Se a gente vai se desencontrar depois, eu não sei.
Mas eu vou construindo o encontro.
E enquanto a gente não se encontra, por onde será que anda você agora?

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

Da tua admiradora secreta.

Vi você de longe hoje. Você não me viu porque provavelmente nem me conhece. Eu diria que com certeza você não me conhece. Mas não importa muito, desde que eu ainda possa te admirar de longe.
É bem verdade que cada vez que você sorri eu gostaria de morar dentro daquelas suas covinhas, porque pra mim é o lugar mais bonito do seu corpo. Mas não recusaria a oportunidade de descobrir você por inteiro – descobrir seu peito nu e chegar perto da batida do seu coração, que provavelmente bate no ritmo da sua voz quando canta, que eu ouço com textura de veludo.
Eu fico olhando pro teu rosto e descubro que ele é a minha fotografia favorita no mundo. Tua beleza é a poesia que eu não canso de ler, daquelas que dá vontade de tatuar pelo corpo inteiro – tua paz nos movimentos dos braços e teu jeito de se acomodar na cadeira são minha dança preferida. Ficaria horas parada apenas te vendo caminhar, sentar, levantar, ajeitar o cabelo – esse teu cabelo! Talvez seja uma versão masculina heroica da Medusa. Não sei explicar de um jeito melhor a hipnose que tu me causas.
Se eu tivesse te conhecido com 13 anos, já teria escrito uma música pra você na última folha do meu caderno. Já teria entrado em comunidades do Orkut pensando em você. Teria passado noites imaginando como seriam nossas primeiras conversas. Teria começado a ouvir uma banda que você gosta muito. Mas eu te conheci agora. Ainda assim, eu olho pra você e imagino nós dois entrando numa loja de decoração e comprando almofadas pra enfeitar nosso sofá. Imagino nós dois terminando um filme e discutindo mil teorias sobre ele. Imagino nós dois cantando juntos e um pro outro, com a sede do amor no olhar. Imagino nós dois, apenas.
Talvez eu passe a vida só imaginando. Talvez não. Mas me basta a paz de saber que existe uma beleza tão pura e tão rara no mundo como a tua. Basta a certeza de que tu estás presente em algum lugar. Basta a mim a calmaria de saber que posso te ver de longe hoje, amanhã e depois. Basta a mim te ver.

Da tua admiradora secreta.


sábado, 13 de agosto de 2016

Os olhos nus.

Sem intenções. Sem novidades. Estavam apenas nus, aqueles olhares. Dois desconhecidos que ergueram os olhos ao mesmo e tempo e se descobriram perplexos ao se encararem forçadamente.

É curioso como o olhar nos entrega. Não é à toa que chamam os olhos de “janelas da alma”. Quando fitamos sem querer alguém que também encontra nossos olhos sem intenção, é como se as janelas estivessem com as cortinas abertas e lá no cômodo alguém troca de roupa furtivamente, na tentativa de não ser pego em flagra. E assim como rapidamente se desvia o olhar, rapidamente se fecham as cortinas na tentativa de que o embaraço seja amenizado, como se fosse um grão de areia ao invés de um elefante desengonçado entre as duas grandes janelas.

O porquê de desviarmos o olhar tão pasmos como se tivéssemos sido invadidos, não sei. Mas sei que congelo cada vez que meu olhar se descobre nu sobre a nudez de outro par de olhos – uma intimidade repentina, um soco na boca do estômago, uma cilada, Bino! – e fico me perguntando se é um sinal do universo ou coisa parecida cruzar duas janelas distantes ao mesmo tempo. Quem sabe seja essa a agulha no palheiro do mundo dos olhares.

Talvez seja utopia, mas espero que um dia estejamos preparados para olhar o mundo de maneira nua e despretensiosa, sem medo de sermos pegos por outros olhares nus. Sem mascarar nada. Sem que precisemos fechar as cortinas, porque da janela só se verão coisas bonitas.

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Você é insubstituível, mas não imprescindível.

Escrevi uma mensagem de texto pra você. Reli pela quarta vez. Movi meu dedão pra chegar próximo ao botão “enviar”. Desisti. Apaguei o terceiro projeto de te chamar. Não via sentido. Aos poucos, a vontade de querer você por perto vai morrendo.

Parece uma flor mesmo essa coisa de gostar de alguém. Vai perdendo a cor, o cheiro bom, a postura e a vida se a gente não nutrir. Até que perde a graça e você nem sabe mais de onde tirou água pra dar de beber a um sentimento que hoje não faz o mínimo sentido pra nenhum dos dois.

Hoje à tarde passei naquela rua que nos despedíamos. Você ia pro trabalho, eu pra faculdade. Pensei em como uma pessoa pode mudar o sentido de algumas coisas quando estamos dispostos a deixar ela brotar pelas paredes da nossa vida feito hera. Uma rua! Uma rua que agora está marcada por beijos de despedidas, desejos de “boa aula!” e “bom trabalho!” e olhares de saudade antecipada. Uma rua onde o amor passou e deixou cair suas pétalas.

Ninguém vai passar por aquela rua comigo da maneira como você passou. Ninguém vai parar naquela esquina e despejar amor em mim como você despejou. Mas eu vou passar naquela rua mais mil vezes e talvez por mil vezes eu lembre de nós dois. Ou talvez por quinhentas vezes. Ou trezentas e doze vezes. Talvez algum dia eu passe por essa rua com alguma amiga indo comer cachorro quente e nem me lembre de você ao cruzar a esquina. Ou talvez eu passe por ali com um novo alguém, que não vai despejar amor em mim como você, mas vai despejar de outro jeito e tenho certeza que vai fazer meu coração pular tanto quanto você fez. O fato é que vou encontrar outros jeitos de passar por aquela rua e a vida vai seguir florescendo como quando passava por ali antes de você.

Ninguém vai ser você. Ninguém vai rir como você ria, nem vai me enlouquecer como você me enlouquecia, ninguém vai me deixar brava como você me deixava. Ninguém vai ser a flor no meu jardim que você era. Mas com tanto espaço para novas mudas, não há motivos pra lamentar a sua partida. O jardim sobrevive sem você, mesmo que vá sentir sua falta. Sei que em algum momento, uma semente inesperada dará uma flor tão linda que o resto vai parecer somente grama desidratada. E é por isso que você é insubstituível, mas não imprescindível. O amor pode dar botão de flor a qualquer momento, é só preparar a terra e contar com os bons ventos.

sábado, 24 de janeiro de 2015

Teias e fundos falsos.

Fazia tempo que eu não escrevia algo. Acho que fazia tempo que eu não me sentia embaralhada como me sinto agora.
Ainda tô me acostumando com a ideia de que confusão dentro da gente sempre vai existir. É como se tivéssemos uma gaiola fixa nas nossas profundezas pessoais só pra aprisionar essa bagunça que não sabe se resolver e nem a gente sabe o que fazer com ela. Não existe a opção "deletar", e se você for parar pra pensar bem, não deletou nada de você. A gente consegue afastar o que ou quem nos faz mal, mas apagar não. Porque apagar os outros é se apagar também.
De certo modo, a nossa bagunça é a bagunça do mundo inteiro. Somos tudo. Somos todos. Nada escapa da gente. Somos aquela teia de aranha. Fazemos parte dela, mas também somos ela toda, por inteiro.
Talvez então façamos todos parte da mesma confusão. O mesmo caos, os mesmos porquês, os mesmos fundos falsos que vamos descobrindo juntos. Todos somos um eterno fundo falso, cheio de subjetividades e camadas a serem descobertas uma a uma. E assim como a teia, somos o fundo falso por inteiro e principalmente cada uma de suas partes. Somos nós todos o mesmo. Somos um grande, engenhoso e misterioso fundo falso.

segunda-feira, 21 de julho de 2014

Covarde coração.

Eu sempre me julguei muito corajosa. Sempre busquei ser o tipo de pessoa que não precisa falar escondido ou pelas costas. Que cutuca o ombro do inimigo e fala as verdades na cara. Que toma fôlego pra chegar no cara que tá afim. Meus pensamentos se resumem em tentar ser honesta comigo mesma. E então eu percebi que meu coração não me faz corajosa quando estou apaixonada. Ele ata minhas mãos e sussurra que “Pelo amor tudo vale a pena.”. Não é bem assim.
Não vale a pena tentar sozinha, não vale a pena espalhar gentileza se não há retribuição. A prioridade não é o outro, sou eu. Mas esse outro maldito é tão fofo e eu gosto tanto... Pois é. Mas gosto muito menos de nunca sentir o mágico “Sou especial”, de ser o eterno segundo plano e perder pra qualquer coisa que aparentemente dê um tipo de retorno para outrem. Temos sim que ser humildes no amor, mas não precisamos ser humilhados. Não precisamos ser a única parte romântica, a única parte carinhosa, a única parte que se arrepende e pede desculpas.
This is where I come to cry 😭Entendam que não penso que deva ser uma questão de “dar para receber”. Mas qual amor que sobrevive sem ser valorizado? Existe muito amor na insistência, mas paciência tem limite, e amor próprio deveria ter também. Assim como não acredito que um deva ser o contrário do outro. Sempre esperamos encontrar afinidades em alguém. Em relacionamentos amorosos, afinidade não é só gostar das mesmas músicas e torcer pro mesmo time. Afinidade não é só ser ouvido, é saber ouvir e principalmente se mostrar interessado. É ser generoso. É ser observador e fazer alguma coisa com tanta observação! É agradar, é surpreender, é medir as palavras. É reconhecer que errou primeiro, ou que errou segundo, sei lá! Simplesmente entender que errar pode não ser uma fraqueza, mas uma lição. É entender que caminhar junto é bom e que amar não enfraquece ninguém em nada. Amar não é abandonar faculdade, emprego, família, amigos, casa, carro ou mais mil coisas. Amar é ter e fazer todas essas coisas e poder conversar com alguém sobre elas no fim do dia. Quando a gente se apaixona, esquece que existe um mundo lá fora. Tudo vira confete porque minutos antes estávamos trocando mimos com o amado ou a amada. Mas existem pessoas que quando se apaixonam, ficam com medo. Amam menos porque receiam “esquecer-se do resto”. Usam tanto o conta-gotas com o coração, que esquecem as lágrimas que estão provocando nos corações alheios. Mas aí o conta-gotas muda de mão e o amor vai morrendo desidratado. É preciso coragem pra buscar água em outro poço. Coragem.

terça-feira, 1 de julho de 2014

Sobre sonhos e saudades.

Vim dizer que eu sonhei com vocês. Foi domingo passado, e eu sonhei que era verdade, sonhei que eu estava em São Paulo e que eu estava com todos bem pertinho de mim. Eu dizia: “Dessa vez não é sonho, é real! Eu estou aqui com vocês!” Eu fui na faculdade, encontrei com um pessoal, ri um pouco, mas estava ansiosa pra ver vocês logo. Era a hora do almoço, então entrei no refeitório e fui direto na nossa mesa, mas ela estava vazia. Fiquei zanzando perto dos balcões, procurando por algum rosto conhecido,  quando meu telefone tocou. Era a Ju. Ela estava me dizendo que o pessoal não estava no colégio, e que estavam indo se apresentar em outra cidade. Fiquei desapontada, houve uns instantes de silêncio, mas ouvi do outro lado da linha um “Tô zuando” e naquele instante, meu coração sabia que ia sofrer por alguns minutos. Ela disse pra eu olhar à direita. A voz dela estava embargada. Foi aí que vi vocês. Estávamos emocionados, e quando a Ju se levantou pra vir me abraçar, uma cachoeira de saudade saiu pelos meus olhos.
Acordei com o coração apertado, e estou naqueles momentos de saudade pensativa, aqueles que só vocês sabem me fazer deixar pra lá. Sei que as histórias se modificam, sei que elas se reinventam e se reescrevem constantemente. Sei que a história que eu vivi não é a mesma que vocês vivem hoje. Não é o mesmo cenário, não são os mesmos personagens, talvez algumas características permaneçam, mas não é mais como eu conheci. Mas por mais estranho que seja esse novo enredo pra mim, não importa tanto. Não importa porque eu me apaixonei pela essência de cada um de vocês, não pelo resto. Sou apaixonada pela cumplicidade, pelo carinho, pela alegria que vocês me proporcionaram. Sou apaixonada pelas confidências, pelas brigas, pelas risadas que compartilhamos. Sou apaixonada por todas as coisas maravilhosas que vivi com vocês. Amo cada um com todas as minhas forças, e sou extremamente grata por vocês terem me mostrado o que é uma amizade verdadeira. Sou ainda mais grata por terem sido tantas, tão lindas e tão fortes.
Vocês só precisam lembrar que eu vou sentir a falta de vocês pra sempre, porque eu entreguei um pedaço do meu coração pra cada um e não estou disposta a recebê-lo de volta, pois estou certa de que ele está em boas mãos. E quando sentirmos saudades, vamos relembrar as risadas, as brincadeiras, os abraços, as confissões, as desculpas e até as conversas sérias que tivemos. E saibam que quando eu lembrar, eu vou ter certeza de que foi real, e assim como naquele domingo, vou saber que vocês são o sonho mais lindo que eu já tive.

(Texto dedicado a Katy, Brenda, Juliana, Thamires, Lucas, Thiago, Marcos, Felipe, Patrícia, Bárbara, Danilo, Ingrid, Gabriel Henrique, Franklin, Kaike e Renato.)

P.S.: Essa foto foi de um dia que passamos juntos. Escolhi ela porque não tem como disfarçar a alegria no meu olhar. É assim que eu quero que vocês se lembrem de mim sempre.

quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sobre liberdade, trajetos e carros.

Quase todos os filmes feitos para adolescentes e jovens adultos trazem alguma cena que expressa “liberdade”. Seja dirigindo e cantando alto, seja vendo o nascer do sol com os amigos. A formatura do ensino médio, ver as estrelas com o namorado... Algo nesse sentido. E tenho a liberdade de dizer – ou penso ter – que todo ser humano já teve a sensação de se libertar até mesmo de si. Existe essa vontade de querer voar sabe-se lá pra onde, gritar até cansar, como se isso fosse estraçalhar a ansiedade que existe dentro da gente em algum lugar. Chorar até esgotar a dor ou a ânsia ou o pavor, não sei. Em mim existe de tudo um pouco, e tento me convencer que essas coisas, na verdade, sempre existiram, só estão mais acentuadas. Dá pra acreditar nisso? Quando eu lembro que houve dias sem tantas lágrimas, sem tanto desespero e sem tanta angústia, eu digo que não, não dá pra acreditar.
Talvez - e digo isso sem tanta convicção – seja assim mesmo. Talvez essas coisas sempre tenham existido. Talvez os problemas dos outros sejam tão grandes quanto os nossos, ou maiores. Mas vou ser muito mentirosa se disser que consigo entender isso completamente. Quando é a sua vez de sentir as coisas, você descobre que não é tão altruísta assim. Eu pelo menos sei que não sou, e assumindo isso não quero ser nenhuma detentora da verdade ou da humildade. O intuito, na verdade, é identificar meus irmãos de “egocentrismo”. Não estou sozinha, sim?

Houve um tempo em que eu sonhava frequentemente que estava dirigindo e todas as vezes que sonhei isso, lembro-me de estar nervosa diante do volante, e sempre batia o carro. Uma vez, minha mãe me disse que esse sonho tinha algo relacionado à liberdade. Deduzi por isso que “Liberdade não é meu forte. Não agora, Elena. Agora você vai bater e se machucar.” E aí? E aí que eu teria que encarar uma batida, um arranhão, um braço quebrado ou qualquer consequência dessa batida. Isso era demais pra mim. Porque arriscar? Hoje eu acho que se eu estivesse no volante, eu talvez quisesse bater. Ou precisasse bater. Ou quem sabe nem batesse de primeira. O fato é que mais cedo ou mais tarde, eu bateria o carro. Eu me machucaria, e talvez nem precisasse estar no volante pra me machucar, porque se eu deixasse outra pessoa dirigir, o risco de algum acidente acontecer era o mesmo, simplesmente porque todo mundo tem seu baque algum dia. Se isso afeta ou não outras pessoas, depende do baque e claro, de como o trajeto é feito. Agora, se eu batesse, do que me importaria os outros carros batidos? O meu estava batido! O que me faria pensar em olhar para ver se alguém estava mais ferrado do que eu? Nada mais teria minha atenção. Aqui estamos nós no egocentrismo de novo. Como eu gostaria de achar minha grama mais verde nesse momento!

E sabe de uma coisa? Embora existam todos esses perigos, o risco de fazer a escolha errada, o risco de não conseguir sozinha de primeira, existe o risco de ser livre. Livre que nem a gente fica quando olha as estrelas com o namorado, ou quando a gente canta “Man! I Feel Like a Woman” alto no carro – carros são o forte desse texto, hein? – ou quando a gente vê o nascer do sol com os amigos. Livre como quando a praia é só nossa ou quando nosso quarto é pequeno mas está tocando aquela música, e ouvindo ela é como se só existisse você e a sua liberdade no mundo. Não é uma cena de filme adolescente que traduz a liberdade, nem o sonho com o carro batido. Essas coisas, no meu modo de ver, não chegam nem perto da sensação da tão famosa “freedom”. São metáforas que enfeitam textos como esse, mas pra corações aflitos por serem livres, é a maneira mais alegre e palpável pra explicar o que só se consegue sentir. Nesse caso, discordo de Clarice: liberdade pra mim não é pouco. Se vier com um carro de brinde então, negócio fechado.

quinta-feira, 27 de março de 2014

Sobre acreditar.

O que eu mais quero é acreditar.
Porque ando doente, com o coração debilitado, os olhos lacrimejantes e a cabeça tonta. Por fora sou só risos. Sorrisos que camuflam uma angústia debilitante.
O que eu mais quero é acreditar que nem tudo é em vão, que o amor também existe pra mim e que a tormenta um dia vai passar. Quero amor declarado, escancarado, quero acreditar que não sonho sozinha.
Tenho em mim um abismo que clama para que eu me atire pra ele. Talvez seja ele o único no mundo que está disposto a me receber e me absorver de corpo e alma. Talvez só esse abismo, que contém tudo e contém nada, talvez só ele desembarace os nós dessa dor. Talvez só ele me ame de verdade. Se ele me amar, o que eu mais quero é acreditar.
Eu estou fraca e assustada. Não consigo amar e preciso desesperadamente ser amada. Surpreendida. Impactada. Laçada. Conquistada.
O que eu mais quero é acreditar que ainda há espaço pra tudo isso, mesmo com toda a bagunça que anda esse meu coração. Quem vai lutar por mim? Quem vai me escrever bilhetinhos? Quem vai me dar um abraço sem motivo no meio da tarde? Quem vai ouvir meus medos e acalmá-los? Eu não quero gritar, eu não quero implorar. Eu só quero esperar. Eu quero que alguém me ajude a acreditar. Você ainda está aí?

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

O observatório.

Por alguns instantes, ela se sentia plena no observatório. Seus olhos eram os melhores analistas que alguém pode imaginar. Tinha pelo observado um afeto incomum. A admiração não cessava. Por vezes se sentiu meio boba, mas não era o caso. Prescrutava com seus olhos cada ruguinha, cada curva, cada parte daquele homem, que de inédito pra ela não tinha nada. Mas ela amava se refugiar no observatório e admirá-lo de longe, entregando-se cada vez mais por inteiro ao observado.
Não se sabe se era o amor dela que fazia o observado ser tão bonito, ou se esse já o era. Ainda assim, a admiradora se encantava um pouco mais cada vez que usava o observatório. Não entendia muito bem a lógica no Não-Cansaço que o lugar tinha, mas o fato era que não se cansava. Nem ela, nem suas lentes, nem seu coração. Vivia um amor através de um vidro.

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Sobre luzes de faróis e agulhas.

Acho que tem uma fase na vida da gente que os amigos são nossos faróis. Iluminam o tantinho do caminho que nos cabe ver; mais que esse tantinho é sacanagem com o futuro. Ele acaba perdendo o emprego numa dessas, então, vamos vendo o necessário pra dar os primeiros, segundos, terceiros passos. De mãos dadas, nunca sozinhos, porque enquanto tem uma luz, temos uma chance. Por falar nisso, não me lembro de ter tido momentos completamente escuros. E sem querer bancar a sabidona, acho que você também não vai lembrar.
No caminho, a gente vai andando e às vezes perambulando e tentando ser mais do que consegue, ver mais do que pode, tropeçar menos do que deve. A gente cai e chora e dói muito, e ninguém realmente entende. Mas alguém vem e nos levanta, e a gente olha pra trás e a pedra parece ter diminuído. Andamos mais um pouco e, como num insight, entendemos que era só uma pedrinha. E aí nem nós mesmos entendemos porque tropeçamos. Só o que se sabe é que sempre haverá uma pedra maior que, na verdade, era pequena também, mas não conseguimos ver com tanta clareza nesses momentos de queda. É como se nos anestesiassem com dor - uma longa e gigantesca agulhada, vinda de todos os cantos, nos suspendendo em um coração apertado. Mas veja só, existem mãos que se dispõe a retirar as agulhas, a dosar a medicação certa, e pronto. Passou. Está passando. Ou vai passar.
Mas eu acho, no fim de tudo, que nossos amigos-faróis-enfermeiros são, na verdade, os simples. Pelo menos, enquanto escrevo, tenho três faróis em pensamento. Calculando bem, remexendo e revirando, entendi que eles conseguem mesmo iluminar o tantinho do caminho e levantar a gente e retirar as agulhas porque é simples como eles. Porque, se a gente estiver com o rosto cheio de poeira por ter chorado e ficado no chão, eles não ligam. Eles simplesmente vêm e te puxam, e dane-se sua sujeira. Ou nem tanto "dane-se a sua sujeira", porque eles vão te levar no colo, dar um banho e elogiar seu perfume, mesmo que seja só isso que tenham dito desde que te levantaram. Eles não precisam de discursos, nem textos, nem sacadas, nem cultura, nem músicas-tema, nem nada que envolva uma foto para mostrar pros outros. Eles só precisam que tire seus adereços. Eles só querem ser simples, sinceros, limpos, justos com você. Eles querem ouvir aquela música sem serem julgados, e querem ouvir as suas só pelo prazer de te ver cantando. Eles querem discutir sobre coisas e medos que nunca vão conseguir contar pro Grande Grupo, porque o Grande Grupo é cruel e esmagador. Eles querem que você cresça, mesmo que você não entenda que isso é necessário. Eles querem que você queira por eles algumas vezes. E, quando eles sabem que você não está em condições de querer, eles estão ali para te ajudar a não bagunçar mais as coisas. Tem tantas Coisas Tão Maiores que o Resto... Mas o Resto nos consome quase por inteiro. O Resto nos faz rudes e mal educados. O Resto nos faz cegos, nos faz gananciosos e preguiçosos. Mas as Coisas Tão Maiores enchem o coração e a sala como o Resto nunca vai conseguir fazer. As Coisas Tão Maiores, que são, na maior parte do tempo, as "coisinhas" só fazem sentido com nossos faróis. Já dizia um príncipe bem pequeno: "O essencial é invisível aos olhos."